O presidente Lula (PT) intensificou, na reta final da campanha presidencial, uma estratégia centrada em aumentar a rejeição ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu adversário no segundo turno. A tática gira em torno do desafio de abrir sigilos bancário, fiscal e telefônico — do próprio petista e de pessoas físicas e jurídicas a ele ligadas — desde que o rival faça o mesmo.

A proposta foi apresentada no domingo (18), durante o debate da TV Band. Segundo a avaliação do comando da campanha do presidente, a recusa de Flávio em aceitar o desafio provocou desgaste junto ao eleitorado. O plano é repetir o ataque no debate da Globo, programado para dois dias antes da votação. Aliados do petista apostam que o senador não aceitará a abertura dos dados.

Dificuldade para crescer

A aposta em elevar a rejeição do oponente decorre da dificuldade de Lula em ampliar a própria popularidade. Ele encerrou o primeiro turno com cerca de 45% dos votos válidos, contra 47% de Flávio Bolsonaro. Desde 1988, quando o segundo turno foi instituído no Brasil, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu reverter a situação na etapa decisiva.

Na terça-feira (20), Lula formalizou o desafio ao apresentar documento ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). “Em toda eleição inventam alguma coisa contra a minha família e resolvi não ficar quieto. Esta é a minha última disputa eleitoral, e eu não posso deixar que um ladrão tente jogar a minha biografia no lixo”, afirmou o presidente na segunda (19), em Porto Alegre.

No mesmo dia, o senador Camilo Santana (PT-CE), porta-voz da campanha, disse ter em mãos procurações assinadas pelos filhos e netos maiores de 18 anos do presidente autorizando a abertura dos sigilos. Questionado sobre por que Lula não abriria seus dados de forma unilateral, Santana respondeu que a medida é um desafio ao adversário. “Se o presidente devesse alguma coisa não estava fazendo isso. Faz isso quem não deve nada a ninguém.”

A análise do pedido no TSE coube ao ministro André Mendonça. “Que ele possa agir com imparcialidade”, pediu Camilo. Sobre a abertura do sigilo do cartão corporativo do governo, o porta-voz disse não ver problema, mas afirmou não ter tratado do assunto com o presidente.

Condição para o debate

Ainda na terça, durante passagem por Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), Lula condicionou sua participação no debate à adesão de Flávio. “Se ele apresentar o documento autorizando quebrar o sigilo, vai ter debate. Porque se não, ele não pode ir no debate porque o presidente da República não pode debater com ladrão”, declarou. Antes, ele já havia afirmado que o rival não teria coragem de abrir os dados, “nem como pessoa física nem como pessoa jurídica”.

Segundo o documento entregue ao TSE, Lula propõe divulgar também os sigilos da mulher, Janja, e dos filhos Lurian, Marcos Cláudio, Fábio Luís (Lulinha), Sandro Luís e Luís Claudio, além da empresa de palestras L.I.L.S., da qual é o único sócio. Do lado de Flávio, a lista inclui o próprio senador, o pai, Jair Bolsonaro, a mãe, Rogéria, os irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, a mulher, Fernanda, e cinco empresas ligadas ao candidato do PL.

O documento estabelece que a abertura dos dados deveria ocorrer até esta quarta-feira (21).