Nomes históricos do PT envolvidos em escândalos como o mensalão e a Operação Lava Jato não conseguiram retornar à Câmara dos Deputados na eleição deste domingo (4). José Dirceu (PT-SP), Delúbio Soares (PT-GO) e André Vargas (PT-PR) foram superados por nomes mais novos ou mais competitivos do partido. A exceção foi João Paulo Cunha, eleito por São Paulo.

O resultado frustra as tentativas de retorno de lideranças que ocuparam posições centrais no governo e no círculo de confiança do presidente Lula (PT), mas perderam espaço político após ficarem sob forte escrutínio público em razão de denúncias de corrupção. A derrota também consolida a tese de que, embora Lula tenha vencido em 2022, o antipetismo segue presente na forma como os eleitores definem a composição do Congresso Nacional.

Exceção eleita por São Paulo

Cunha volta à Câmara apostando na proximidade que já teve com a principal liderança do partido. Ele foi deputado federal por cinco mandatos, entre 1995 e 2014, e presidiu a Casa de 2003 a 2005, quando Lula estreava no Planalto.

Sua trajetória foi abalada pelo mensalão, em 2005. Condenado em 2012 a 6 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva e peculato, foi preso em 2014 e ganhou alvará de soltura do STF no início de 2016, na esteira do indulto de Natal assinado pela então presidente Dilma Rousseff.

Em rede social, o eleito publicou fotos antigas ao lado de Lula e celebrou: “Tem gente que achou que eu tinha parado. Eu segui trabalhando, ouvindo e me preparando para esse momento. Volto com mais experiência, mais disposição e com a mesma convicção de sempre: estar ao lado do povo e ajudar o presidente Lula a fazer o Brasil avançar cada vez mais”.

Passado pesou contra Dirceu, Delúbio e Vargas

Em São Paulo, José Dirceu perdeu espaço para petistas mais jovens, como os deputados eleitos Luna Zarattini e Thiago dos Reis. No Paraná, Vargas foi superado por Zeca Dirceu, filho do ex-ministro. Em Goiás, Delúbio não superou a Delegada Adriana Accorsi e Rubens Otoni, ambos reeleitos.

Ex-ministro da Casa Civil (2003-2005), três vezes deputado federal e ex-presidente nacional do PT, Dirceu foi peça central nas articulações que levaram o partido à primeira vitória no Executivo nacional. Cassado pelos pares na Câmara em 2005, no rastro do mensalão, foi condenado pelo STF a 7 anos e 11 meses por corrupção ativa e preso no fim de 2013. Migrou para a prisão domiciliar em 2014, mas voltou a ser alvo de mandado de prisão na Lava Jato em 2015. As condenações impostas pelo então juiz federal Sergio Moro, hoje governador eleito do Paraná, foram anuladas pelo STF em 2024.

Delúbio, ex-tesoureiro do partido, se apresentou na campanha como “o candidato que é amigo do Lula”. O presidente gravou um vídeo pedindo voto “a um companheiro que foi vítima da maior perseguição já feita na história desse país”. A relação com o PT, porém, teve percalços: expulso em 2005, no contexto do mensalão, depois se tornou alvo da Lava Jato. Primeiro condenado a 6 anos e 8 meses por corrupção ativa, cumpriu pena por mais de dois anos e foi liberado em março de 2016, por indulto de Natal assinado por Dilma. Dois anos depois, recebeu nova condenação, de 6 anos, na Lava Jato, com a prisão revogada em novembro de 2019, quando o STF decidiu que penas só podem ser cumpridas após o esgotamento dos recursos — decisão que também permitiu a soltura de Lula naquele ano. Em 2023, o STJ anulou a sentença por entender que o caso deveria ter tramitado na Justiça Eleitoral, e não na Justiça comum.