A certeza antecipada da vitória pode ser um trunfo ou uma armadilha. Na avaliação de analistas do comportamento eleitoral, o candidato apoiado pelo pai — convencido de que o resultado já está garantido — parece ter escolhido o segundo caminho. Ao abdicar dos debates e entregar as ruas ao adversário petista, Flávio Bolsonaro revive um erro clássico da política brasileira, aquele que Fernando Henrique Cardoso ajudou a eternizar como lição para as campanhas seguintes.

O peso de evitar o embate direto

Recusar debates é uma decisão que raramente passa despercebida. Do ponto de vista estratégico, o cálculo é evitar exposição a ataques e gafes. Mas o custo político costuma ser alto: o eleitorado interpreta o silêncio como arrogância ou, pior, como sinal de insegurança. Quem se convence de que já ganhou tende a se comportar como se a campanha tivesse terminado — e é justamente nesse intervalo que o adversário avança.

As ruas entregues ao rival

O segundo movimento igualmente questionável foi a concessão do espaço público. Com as ruas dominadas pelo movimento de Lula, o candidato do pai abre mão da demonstração de força que, em eleições disputadas, funciona como termômetro de engajamento e como instrumento de pressão sobre eleitores indecisos. A ausência se transforma em narrativa: a de uma campanha que desistiu de convencer e passou a apenas esperar o pleito.

A lição de Fernando Henrique

A história política do país guarda episódios em que a confiança excessiva cobrou caro, e Fernando Henrique Cardoso tornou-se referência nesse tipo de advertência. O chamado erro de salto alto — a certeza de que o chão é firme demais para o tropicão — virou símilo do candidato que desdenha do adversário e do processo. Ignorar essa lição, para os críticos, é repetir o roteiro de quem preferiu comemorar antes da apuração.

Resta saber se a estratégia de esquiva será confirmada ou corrigida nos próximos dias. O que a experiência ensina é que, em eleições, o resultado só se decide nas urnas — e que quem abandona o palco antes do fim entrega ao rival não apenas o palco, mas também o roteiro da história que será contada depois.