A influência dos professores sobre os estudantes ultrapassa a transmissão de conteúdo. Segundo a doutora em economia Lorena Hakak, presidente da GeFam (Sociedade de Economia da Família e do Gênero) e professora do PPGE/UFABC, docentes também moldam a visão que o aluno desenvolve de si mesmo — e crenças repetidas em sala podem limitar desempenho e escolhas.
Em texto publicado em outubro, a economista recorda a professora da primeira série, a tia Célia, cujo carinho com os alunos permaneceu na memória, e observa que o papel do docente se mantém em todas as etapas escolares. Na infância, a relação de aprendizado vem acompanhada de uma conexão quase maternal. Com o tempo, permanece a transmissão do conhecimento e, talvez com ainda mais força, do gosto pela disciplina — influência que pode determinar a escolha da profissão e, em alguns casos, transformar-se em amizade.
Relações que marcam trajetórias
Hakak relata que a mãe manteve contato por décadas com Maria Luiza, professora de inglês do ensino fundamental 2, e que essa relação de aprendizado virou amizade, estendendo-se depois à autora e ao marido dela. Para a economista, a combinação de aprendizado e inspiração contribui para o progresso dos estudantes, ainda que a relação professor-aluno seja desigual: há hierarquia e cabe ao docente avaliar.
É justamente essa posição que torna essencial refletir sobre possíveis vieses. Professores, como qualquer pessoa, podem carregá-los e, mesmo sem perceber, interferir no aprendizado e no progresso dos alunos. Os efeitos podem aparecer no desempenho acadêmico, na desistência de um curso e até nas escolhas profissionais. A própria economista conta que evita olhar os nomes dos alunos ao corrigir provas, como forma de reduzir vieses na correção.
O que dizem os estudos
Pesquisas acadêmicas indicam que docentes podem apresentar vieses relacionados à raça ou ao gênero. Um estudo recém-publicado de Joan J. Martinez, com dados de alunos e professores do Peru, mostra que a exposição a professores de matemática com práticas de avaliação mais estereotipadas amplia as desigualdades de gênero no ensino médio e pode gerar consequências que se estendem ao mercado de trabalho. O artigo também apresenta evidências de que professores com estereótipos de gênero mais fortes tendem a associar meninos à matemática e às ciências e meninas às humanidades.
Como romper o ciclo
Para Hakak, o primeiro passo é examinar o próprio comportamento em sala e as próprias crenças, já que há tendência a reproduzir o que se aprendeu anteriormente. Reconhecer padrões repetidos sem percepção consciente é, segundo ela, a parte mais difícil — e há risco de reforçar, sem intenção, crenças que os próprios alunos têm sobre si mesmos.
Nesse cenário, a figura do professor é apontada como primordial para mudar essas crenças. Construir um ambiente que enfatize a perseverança, o feedback construtivo e a ideia de que a inteligência é maleável — pilares da teoria da mentalidade de crescimento — ajuda a desconstruir concepções limitantes. Alunos, sobretudo crianças e adolescentes, absorvem o que lhes é ensinado e a forma como são incentivados e avaliados. Por isso, docentes teriam papel decisivo não apenas na transmissão do conhecimento, mas também na percepção que os estudantes desenvolvem sobre as próprias habilidades.
Ao encerrar o texto, a economista desejou um feliz Dia dos Professores.
