O presidente Lula (PT) saiu vencedor do debate desta sexta-feira (23), na TV Globo, por uma margem considerável, porém não esmagadora. A avaliação é do cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) e presidente de honra da Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais).
Desempenho dos candidatos
De acordo com o pesquisador, Flávio Bolsonaro (PL) apareceu mais preparado e disciplinado do que no debate da Band, realizado no domingo (18). Mesmo assim, Lula retornou integralmente ao jogo eleitoral, enquanto o senador fluminense conseguiu preservar sua competitividade, mas terminou o confronto em postura defensiva.
“[Lula] foi progressivamente melhor. Começou um pouco irritado, administrou mal o tempo e nem sempre respondeu diretamente. A partir do segundo bloco, porém, associou sua biografia às políticas sociais, fez Flávio admitir o erro na votação da licença-maternidade e pedir desculpas pelo ataque dos ‘nove dedos’, além de apresentar realizações concretas nas áreas de renda, crédito, educação e apostas”, afirmou Lavareda.
Para o cientista político, o instante mais forte do petista ocorreu quando o presidente mencionou o caso Ana Clara, no qual o senador atuou como advogado, sem cobrar honorários, do policial militar suspeito do crime. “A pergunta sobre a defesa do policial acusado de atirar numa criança de cinco anos colocou Flávio claramente na defensiva. Lula combinou autoridade, experiência e proteção às vítimas.”
Pontos fortes e fracos de Flávio
Lavareda destacou que os melhores momentos de Flávio surgiram nas abordagens sobre preço dos alimentos, endividamento, juros, segurança pública e retomada de territórios controlados por facções. O candidato do PL, segundo o pesquisador, foi capaz de formular frases simples e com alto potencial de circulação nas redes sociais.
“[Flávio Bolsonaro] perdeu força, entretanto, pelo excesso de bordões, por informações imprecisas, pela falta de detalhamento do ‘tesouraço’ e por manifestações de deboche. O pior momento foi o caso Ana Clara: errou o nome da mãe, demonstrou tensão e insistiu na inocência do policial que havia defendido”, avaliou o cientista.
Saldo eleitoral
Na análise de Lavareda, a balança do embate pende favoravelmente ao petista, sobretudo entre indecisos, mulheres e eleitores menos ideologizados, público “sensível a programas sociais e à proteção das vítimas”. Flávio teria mantido sua base, mas desperdiçado a chance de ampliar sua vantagem.
“O debate pode produzir alguns décimos ou até cerca de um ponto de movimento. Isoladamente, porém, não permite afirmar que a eleição tenha virado: a cristalização das preferências e o diferencial de comparecimento continuam decisivos”, declarou o pesquisador.
Contexto da disputa
O encontro foi o segundo entre os dois candidatos, que não participaram dos debates do primeiro turno. Empatados nas pesquisas mais recentes, ambos tentaram conquistar os eleitores indecisos: o senador buscou suavizar o discurso, enquanto o presidente apostou no legado de seu governo.
A comitiva de Flávio contou com os governadores eleitos Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR), além do senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) e do irmão Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio de Janeiro.
Do lado de Lula, estiveram o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro Guilherme Boulos (PSOL), os ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Rui Costa (PT) e a deputada federal Jandira Feghali (PC do B). Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, também acompanhou o petista.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro chegou na frente, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula.