Imagine deixar de respirar quase uma vez por minuto durante toda a noite, sem notar. Essa era a realidade dos voluntários de dois grandes estudos publicados no The New England Journal of Medicine, uma das publicações médicas mais conceituadas do mundo. As pesquisas avaliaram a retatrutida, novo candidato da farmacêutica Eli Lilly contra a obesidade, como tratamento para a apneia obstrutiva do sono. Os resultados impressionaram.
O que é a apneia obstrutiva do sono
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a garganta se fecha repetidamente durante a noite, bloqueando a passagem de ar. O oxigênio no sangue diminui, o cérebro reage com microdespertares e o descanso fica comprometido. O sintoma mais visível da condição são os roncos.
Estima-se que mais de 400 milhões de pessoas no mundo sofram com a forma moderada ou grave da doença, que está ligada a sonolência durante o dia, acidentes, hipertensão, diabetes e complicações cardiovasculares. O acúmulo de gordura é um dos principais fatores do problema, e a perda de peso geralmente melhora o quadro.
Medicamento com três alvos
A retatrutida atua simultaneamente sobre três hormônios: os mesmos dois utilizados pela tirzepatida (do Mounjaro) e, adicionalmente, o glucagon. Por esse motivo, é classificada como agonista triplo.
Os novos estudos reuniram 691 adultos com obesidade ou sobrepeso e apneia moderada a grave, divididos em dois grupos: 243 sem diabetes e 448 com diabetes tipo 2. Os participantes receberam, ao longo de 80 semanas, injeções semanais de 4, 9 ou 12 miligramas do fármaco ou placebo, acompanhadas de orientações sobre dieta e exercícios.
Entre os voluntários sem diabetes, o número de interrupções respiratórias caiu cerca de 34 por hora com a dose de 9 mg e 32 com a de 12 mg, contra 10 no grupo placebo. Em termos proporcionais, a redução foi de 57% e 53%, ante 11% com placebo. O peso diminuiu, em média, 22% e 21%, frente a 5%.
O dado mais concreto talvez seja este: com 9 mg, 52% dos participantes alcançaram a remissão da apneia ou uma forma leve sem sonolência excessiva, contra 12,5% no placebo. Isso significa cerca de 39 pessoas a mais em cada 100, ou quatro vezes mais chance de atingir esse patamar. Nesses casos, o aparelho de pressão positiva, o conhecido CPAP, pode se tornar desnecessário.
Entre os voluntários com diabetes, o benefício também foi observado, porém em menor escala, resultado já esperado para essa classe de medicamentos: queda de cerca de 25 eventos por hora (40%) com as doses mais altas, contra 10 (13%) no placebo, e redução de peso de 18%, ante 6%.
Os pesquisadores avaliaram ainda a chamada carga hipóxica, que mede por quanto tempo e com que intensidade o oxigênio cai durante a noite. O índice despencou até 75% com a retatrutida. Esse marcador já foi associado a maior risco de morte cardiovascular, mas ainda não está claro se sua redução protege o coração.
Efeitos colaterais e alerta
Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, como diarreia, náusea e prisão de ventre, geralmente leves a moderados e concentrados na fase de aumento gradual da dose. Chamou atenção uma sensação de queimação ou formigamento na pele, relatada por até 13% dos usuários, contra 2% no placebo. A frequência cardíaca subiu até 7 batimentos por minuto no pico, retornando a 1 ou 2 acima do valor inicial ao final do estudo. A taxa de abandono por efeitos adversos foi parecida entre os grupos.
Vale destacar que a retatrutida é uma droga experimental, sem aprovação ou registro em nenhum país do mundo.
Atualmente, o único medicamento autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a apneia do sono é o Mounjaro, liberado para essa indicação em outubro de 2025 para adultos com obesidade. A agência tem alertado sobre a venda clandestina tanto de versões irregulares de tirzepatida quanto de produtos que alegam conter retatrutida. Comprar por esses canais é um risco que pode custar caro à saúde.
