Cinco organizações da sociedade civil cobraram nesta terça-feira (20) que o Congresso dos Estados Unidos abra uma investigação sobre o comportamento da Meta — empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp — durante o pleito no Brasil.

A carta enviada aos parlamentares americanos se apoia em uma série de reportagens da Folha que expuseram falhas na moderação de conteúdo, na distribuição de publicações e na veiculação de anúncios políticos às vésperas do segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), marcado para o próximo domingo (25).

Assinam o documento o Washington Brazil Office, o Washington Office on Latin America, o Center for Economic and Policy Research, o Amazon Watch e o Latin America Working Group. Segundo as entidades, a participação de uma companhia norte-americana em um processo eleitoral estrangeiro requer mais transparência e supervisão dos congressistas.

“Estamos preocupados com a possibilidade de uma empresa de tecnologia sediada nos Estados Unidos não estar aplicando suas políticas de moderação de conteúdo, publicidade, recomendações e inteligência artificial de maneira consistente, transparente e em conformidade com a legislação brasileira”, diz o texto.

Entre os episódios citados está a revelação de mensagens internas da Meta em que empregados admitem que restrições afetaram as contas de Lula no Instagram. Os registros também indicaram recomendações do perfil de Flávio Bolsonaro e de um canal de WhatsApp ligado à sua candidatura.

O documento ainda menciona estudo do NetLab, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que apontou a veiculação de pelo menos 1.613 anúncios políticos irregulares no Brasil, pagos em moeda estrangeira, entre julho e setembro deste ano. As publicações movimentaram cerca de R$ 2 milhões e somaram 171,1 milhões de impressões. Entre os anúncios com origem identificada, 98,1% apontavam os Estados Unidos como fonte do pagamento.

As organizações também fazem referência a testes que detectaram tratamentos distintos da inteligência artificial da Meta em solicitações envolvendo os dois candidatos ao Planalto, além de um levantamento sobre a circulação de vídeos do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Na carta, o grupo pede que os congressistas exijam esclarecimentos técnicos da liderança da Meta, determinem a preservação dos registros internos ligados à eleição brasileira e avaliem a realização de audiências públicas sobre os sistemas de moderação e distribuição de conteúdo da companhia.

O texto destaca que as inconsistências apontadas não provam, isoladamente, favorecimento político intencional. A Meta nega qualquer interferência no pleito e sustenta que aplica as mesmas regras a todos os candidatos, atribuindo os casos a falhas técnicas ou erros não intencionais.

“O objetivo desses pedidos não é apoiar ou se opor a qualquer candidato ou resultado eleitoral”, afirmam as entidades. “É promover a transparência, a aplicação consistente das políticas das plataformas, o respeito à legislação brasileira e a responsabilização de uma empresa americana cujas decisões podem afetar significativamente o ambiente informacional durante uma eleição.”