Avanço lento rumo à paridade

As mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados passaram de 91 para 109 nas eleições de 2026. O crescimento de 20%, porém, parte de uma base muito baixa: a participação feminina na Casa subiu apenas 3,5 pontos percentuais, de 17,7% em 2022 para 21,2% em 2026.

Segundo análise da coluna Voto a Voto, parceria da Folha com o Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cepesp), nesse ritmo seriam necessárias mais nove eleições para alcançar a paridade — patamar já atingido por México e Argentina. A igualdade de gênero na Câmara só chegaria por volta de 2060.

Taxa de sucesso ainda desigual

Um indicador central para entender a sub-representação feminina é a taxa de sucesso, que divide o número de eleitos pelo total de candidatos. A diferença entre homens e mulheres diminuiu ao longo dos anos: em 2014, a taxa masculina na Câmara (9%) era mais que o quádruplo da feminina (2%). Em 2026, ficou em 8% para os homens e 4% para as mulheres — ainda o dobro.

Entre candidatos à reeleição, contudo, o cenário se inverte: deputadas que tentaram novo mandato tiveram 81% de êxito, contra 70% dos homens. O dado sugere que, quando já ocupam postos de poder, as mulheres conseguem negociar melhor os recursos para suas campanhas.

Variação entre os partidos

O desempenho muda conforme a legenda. No PT, a taxa de sucesso das candidatas à Câmara (18%) ficou próxima à dos homens (21%). No PL, que elegeu 22 deputadas federais, o êxito masculino (28%) foi 2,4 vezes maior.

Nas assembleias estaduais, a taxa de sucesso dos homens (11%) também é mais que o dobro da das mulheres (5%), o que indica que as candidatas existem nos dois níveis, mas enfrentam mais obstáculos para se eleger. O padrão partidário se repete: no PT, os índices são próximos; no PSOL, o das mulheres foi três vezes maior. Em PP, União e Podemos, os homens tiveram de três a quatro vezes mais sucesso. O PL elegeu 43 deputadas estaduais (20% dos seus eleitos), com taxa masculina o dobro da feminina. Já o Novo lançou 239 candidatas e não elegeu nenhuma.

Dinheiro e poder nas mãos dos homens

Ter candidatas empenhadas em suas campanhas não garante a eleição. Muitas disputam cadeiras que ainda não ocupam e enfrentam nomes já consolidados. Além disso, uma campanha competitiva exige recursos — e quem decide a distribuição das verbas são as lideranças partidárias que, em 85% dos casos, também são homens.

A coluna relata o caso de uma candidata a deputada federal que, mesmo após anos de campanhas pelo voto feminino, ficou de fora da Câmara por poucos votos. Para a análise, o gargalo estrutural permanece: as mulheres seguem fora dos espaços de decisão nos partidos, o que reduz suas chances de chegar ao poder — e mantém o apelo por mais candidatas mulheres nas próximas eleições.