A abstenção nas eleições presidenciais brasileiras passou por uma inversão histórica: depois de décadas em que faltavam mais às urnas os eleitores de maior renda, a ausência tornou-se hoje maior justamente nas áreas mais pobres do país. Em 2026, 21,3% dos eleitores do quinto de menor renda não compareceram ao primeiro turno da disputa presidencial, contra 20,3% do quinto mais rico.
Em um cenário eleitoral apertado, o fenômeno pode ter pesado contra o presidente Lula (PT), cuja base de apoio está concentrada justamente entre os eleitores de baixa renda.
Inversão começou em 2022
A evolução histórica mostra a transformação. Em 2006, a abstenção era de 15% entre os mais pobres e de 16,9% entre os mais ricos. Em 2014, os índices subiram para 18% e 19,3%. Em 2018, as taxas praticamente se igualaram, em 19,8% e 19,6%. A virada veio em 2022, quando a ausência dos mais pobres chegou a 20,6%, ante 20,1% dos mais ricos.
O levantamento cruza dados de votação por seção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com informações de renda e território do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os locais de votação são classificados em cinco grupos de renda dentro de cada município. A amostra de 2026 abrange 1.170 municípios e cerca de 114,5 milhões de eleitores aptos.
Causas cotidianas e desencanto político
Para Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) e doutor em ciência política pela Universidade Federal do Paraná, um dos autores do estudo, a diferença atual não deve ser superestimada, já que a distância entre os grupos segue relativamente pequena.
Entre as explicações possíveis estão obstáculos do dia a dia que atingem mais os eleitores de baixa renda, como custos e dificuldades de transporte, a necessidade de arranjar alguém para cuidar dos filhos e a responsabilidade de acompanhar pais ou outros familiares.
O padrão, segundo o pesquisador, não aparece nas eleições municipais. Nessas disputas, os mais pobres participam mais porque conhecem os candidatos e mantêm relações próximas com vereadores e prefeitos, o que estimula o comparecimento às urnas.
Dantas cita ainda o desgaste da política como fator de desmobilização: a crise de confiança nas instituições e a percepção de que os políticos não atendem às necessidades da população desestimulam sobretudo os mais pobres. Outro elemento é a facilidade para lidar com as consequências da ausência —com a digitalização dos serviços eleitorais, ficou mais simples regularizar pendências, reduzindo o custo prático de não votar.
Renda divide o voto
Outro levantamento, da Folha, mostra que a renda se consolidou como a principal fronteira do voto presidencial, com mudanças significativas em relação a 2022.
Na comparação com o primeiro turno daquele ano, Lula perdeu votos em quase toda a distribuição, com maior impacto nas faixas de renda média e crescimento apenas entre os 4% mais ricos. Flávio Bolsonaro, por sua vez, avançou em todas as faixas, ampliando a base principalmente entre as populações de menor renda.
Na prática, o divisor é claro: Lula lidera entre os mais pobres, com ampla vantagem na faixa de até um salário mínimo, cerca de 42% da população. Sua maior força está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo —R$ 1,1 mil hoje—, onde soma 76% dos votos. Flávio Bolsonaro vence no restante do espectro, de 1,6 a 16,3 salários mínimos, com melhor desempenho na faixa de 2,9 salários (R$ 4,7 mil), onde alcança 56% e que já coloca a população entre as mais ricas do país.
