Fala foi dada em debate da Band e não aparece no plano de governo

A declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, de que pretende adotar no SUS o padrão de atendimento do Hospital Israelita Einstein é vista como fantasiosa por especialistas em saúde pública. Segundo eles, a fala infla os usuários contra o sistema público.

A afirmação ocorreu no debate da TV Band, no último domingo (18). O candidato, porém, não detalhou como a proposta funcionaria na prática — e seu plano de governo não traz qualquer menção ao tema.

Campanha não responde

Procurada em três ocasiões — segunda (19), quarta (21) e quinta (22) — por meio do WhatsApp de sua assessoria de imprensa, a campanha de Flávio não retornou às solicitações da reportagem.

O Einstein é frequentemente premiado e figura entre os melhores hospitais do país. Existem, contudo, diferenças estruturais em relação ao SUS, que tem o dever constitucional de oferecer acesso integral à saúde a todos os cidadãos, em todas as regiões do Brasil.

Aceno à saúde privada

Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e primeiro presidente da Anvisa e um dos idealizadores do SUS, a declaração representa um aceno à saúde privada e à ampliação de concessões de serviços públicos. Ele classifica a fala como preocupante.

Segundo Vecina, não há como comparar os dois modelos. “Uma coisa é o que o Einstein faz, um hospital privado que atende quem o busca. Outra coisa é o SUS, um sistema de saúde universal que atende 100% da população em hospitalização, prevenção e tratamento. Uma fala nesse sentido revela a ignorância acerca do funcionamento do sistema de saúde”, afirmou.

Ele destaca que o Einstein já atua no SUS, na gestão de hospitais e unidades básicas de saúde, por meio do Proadi-SUS, parceria entre o Ministério da Saúde e hospitais de excelência. Na avaliação do sanitarista, o que o Einstein e o Sírio-Libanês fazem é voltado a um público específico, com decisões próprias de cada instituição.

Lottenberg diz que vídeo foi cortado

A narrativa ganhou força depois que atores do campo progressista recuperaram um vídeo de Cláudio Lottenberg, nome cotado para comandar o Ministério da Saúde em eventual governo Flávio e que já presidiu o Einstein. Nele, o médico afirma que “não colocaria nada mais” no SUS, “a não ser que a gente esgotasse ou pelo menos evoluísse na forma de alocar os recursos que nós já dispomos”.

Lottenberg afirma que o trecho foi reproduzido de maneira fragmentada. “Reconheço que minha formulação poderia ter sido mais precisa: a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, e essa garantia constitucional é uma conquista que deve ser preservada. Defendo um SUS fortalecido, com acesso universal, organizado a partir da atenção primária, com equipes que acompanhem as pessoas, serviços integrados, diagnóstico oportuno e continuidade do tratamento”, declarou.

Segundo ele, a mudança proposta está na organização e na gestão do cuidado, “preservando integralmente a responsabilidade do poder público” e colocando a dignidade e a segurança do paciente no centro das decisões. Sobre a fala de Flávio, disse que o senador usa o Einstein como “referência de qualidade e segurança” e avaliou ser possível aplicar esse padrão dentro do SUS. Questionado sobre a estratégia, citou criar protocolos, estabelecer indicadores, acompanhar desempenho e estimular uma cultura de segurança no cuidado.

Tais mecanismos, porém, já constam da rotina do SUS: o sistema adota protocolos geralmente desenvolvidos por sociedades de especialidades, realiza pesquisas constantes, como o Vigitel, e monitora os resultados das incorporações aprovadas. Questionado sobre como avalia essas práticas no sistema atual, Lottenberg não respondeu.