A penúltima rodada de pesquisas Datafolha antes do segundo turno da eleição presidencial registrou empate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro: os dois candidatos aparecem com 50% das intenções de voto válidas cada um. O levantamento foi divulgado nesta quinta-feira, 22, e comentado pelo cientista político Elias Tavares no programa VEJA em Foco, conduzido por Marcela Rahal. Na avaliação do especialista, o número traduz tanto uma reorganização da campanha petista quanto a dificuldade dos dois lados de atrair eleitores fora de suas bases. “Significa hoje que a gente está no zero a zero”, resumiu.

O levantamento tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Na medição anterior, divulgada uma semana antes, Flávio Bolsonaro somava 47% das intenções de voto, contra 45% de Lula, com 6% dos entrevistados pretendendo votar em branco ou nulo e 2% indecisos. Segundo Tavares, o novo cenário indica uma recuperação da campanha do petista, impulsionada sobretudo pela estratégia de confronto com o adversário no segundo turno.

Rejeição cresce para os dois lados

Um dos indicadores destacados pelo analista foi o comportamento da rejeição aos presidenciáveis. O percentual de eleitores que dizem não votar de jeito nenhum em Lula subiu de 46% para 48%. Já a rejeição a Flávio Bolsonaro saltou de 44% para 48%, uma oscilação de quatro pontos percentuais.

Para Tavares, o avanço da rejeição ao rival está ligado à estratégia adotada pela campanha petista de desgastar a imagem do adversário. “Essa campanha de desconstrução que o governo está fazendo da candidatura do Flávio está, de certa forma, surtindo certo efeito”, avaliou. O especialista ressalvou, porém, que Lula também registrou alta em sua rejeição, o que evidencia as dificuldades dos dois lados.

O que mudou na campanha petista

Na leitura de Elias Tavares, a campanha de Lula passou por transformações em relação ao primeiro turno, quando, segundo ele, teve atuação mais apática. Entre as mudanças, o cientista político citou o reforço da presença nas redes sociais, a retomada da mobilização nas ruas e a divulgação de pacotes de benefícios pelo governo federal.

O analista observou ainda que o PT recuperou traços tradicionais de sua organização eleitoral, como a atuação de militantes nas ruas. Ele comparou a reação da campanha a uma fênix, em alusão à capacidade de reorganização diante de um cenário adverso. Mesmo assim, evitou apontar um favorito: “Não vamos dizer que ela vai ser vitoriosa. Não dá para saber, porque está tudo muito pari passu”.

Tavares mencionou também a reaproximação de Lula com o Centrão. Segundo ele, a movimentação política no Congresso e o desempenho da direita nas eleições legislativas alteraram o ambiente das negociações e favoreceram o avanço de pautas do governo. Para o especialista, a recuperação identificada na campanha petista decorre desse conjunto de fatores, e não de uma medida isolada.

Indecisos ganham peso na reta final

Com o empate numérico apontado pelo Datafolha, o cientista político chamou atenção para a dificuldade das campanhas de alcançar eleitores que ainda não definiram o voto. Em sua avaliação, os candidatos precisam ultrapassar os limites de suas bases políticas e dialogar com um público que não está necessariamente identificado com nenhum dos dois polos da polarização.

Tavares destacou que Flávio Bolsonaro enfrenta o desafio de buscar votos entre os indecisos, em vez de conquistar diretamente eleitores de Lula. Para ele, essa característica da disputa ajuda a explicar a intensificação das estratégias de comunicação e mobilização na reta final. “Agora começa a contar horas para tentar se conectar e falar além da sua própria bolha da polarização”, afirmou.