Duas das principais instituições de pesquisa do Brasil, a Quaest e o Datafolha, têm enfrentado críticas nas redes sociais por causa dos critérios utilizados em seus mais recentes levantamentos de intenção de voto sobre a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Dobra de indecisos na Quaest

No caso da Quaest, divulgada na última quarta-feira, 21, a controvérsia envolve o crescimento abrupto do percentual de eleitores indecisos. O índice saltou de 7% no levantamento divulgado em 14 de outubro para 14% na pesquisa publicada no dia 21. Em uma semana, portanto, a taxa dobrou justamente na reta final da eleição, período em que se espera o movimento oposto: que mais eleitores definam seus votos.

As críticas partiram, sobretudo, de apoiadores de Flávio Bolsonaro. O senador saiu de uma vantagem numérica no levantamento anterior (43% a 42%) para um empate absoluto na pesquisa mais recente (40% a 40%). Um movimento dessa magnitude, em tão pouco tempo, naturalmente chama atenção.

Segundo o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, a explicação está no desencanto do eleitorado com os dois candidatos neste momento da disputa. “Mais gente olhou para o que aconteceu, para a campanha negativa, para os ataques, para o nível do debate (na Band) e está espontaneamente não declarando voto”, afirmou durante a apresentação dos resultados na Globonews. O levantamento foi contratado pelo Grupo Globo.

Nunes destacou ainda que o aumento da indecisão foi mais intenso em alguns segmentos específicos. Entre as mulheres, o percentual de indecisos subiu de 8% para 17%. Entre os chamados eleitores independentes, o salto foi ainda maior: de 13% para 31%.

No conjunto dos dados, a Quaest apontou empate técnico entre Flávio (45%) e Lula (44%) nos votos totais, que incluem brancos e nulos. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Alienação eleitoral em foco

Outro ponto questionado nas redes é o fato de o instituto não desconsiderar o eleitor que não compareceu ao primeiro turno ou votou em branco ou nulo — fenômeno que a Quaest denomina “alienação eleitoral”. Ao apresentar os resultados, Nunes mostrou que, entre esse eleitorado, Lula tem 40% das intenções, contra 36% de Flávio, o que produz o empate quase numérico entre os dois.

“Olha o que está fazendo o empate hoje. Na alienação eleitoral, o Lula tem mais intenção de votos do que o Flávio (40% a 36%). Ou seja, o Lula de fato precisa reduzir a alienação eleitoral para conseguir minimamente se transformar em um candidato competitivo”, declarou o diretor.

De acordo com Nunes, se o cenário de alienação do primeiro turno persistir no segundo, a pesquisa que será divulgada no próximo sábado pode favorecer Flávio. Isso porque o instituto adotará o likely voter (eleitor provável), metodologia que considera o potencial de comparecimento às urnas. “Se o Lula não conseguir nem levar mais eleitores para a urna, a distância, quando a gente calcular o likely voter no sábado, vai ser maior para o Flávio”, afirmou.

Arredondamento no Datafolha

Já no último levantamento do Datafolha, a polêmica principal envolve o arredondamento dos números. Embora a pesquisa estimulada tenha registrado 47% das intenções de voto para Flávio e 46% para Lula, nos votos válidos o resultado apresentado foi de 50% a 50% — um empate numérico, o único até agora entre os grandes institutos no segundo turno.

O instituto justifica que não divulga casas decimais e que sempre arredondou os percentuais, tanto nos votos válidos quanto nos votos totais, que resultaram no placar divulgado de 47% a 46%. “A gente não divulga os resultados com casas decimais, então os resultados são arredondados. Então, esse 50% a 50% pode ser 50,4% a 49,6%”, explicou Luciana Chong, diretora-geral do Datafolha, em entrevista na Globonews.

Principalmente entre apoiadores de Flávio, circulou a contestação de que um cálculo matemático a partir dos votos totais apurados produziria o resultado de 50,54% a 49,46%, o que geraria, com os arredondamentos, um placar de 51% a 49% para o senador — ou seja, em vez de empate numérico, uma vantagem de dois pontos percentuais.