Duas grandes estruturas geológicas da costa oeste da América do Norte podem ter produzido abalos em rápida sucessão ao longo de milhares de anos. É o que sugere um estudo que identificou camadas de sedimentos submarinos apontando rupturas próximas no tempo entre a zona de subducção de Cascadia e o trecho norte da falha de San Andreas — uma possibilidade que reforça o temor de emergências sísmicas simultâneas na região.

Por que os dois sistemas podem estar conectados

A zona de subducção de Cascadia vai do norte da Califórnia até o Canadá, área em que a placa de Juan de Fuca desliza por baixo da placa norte-americana. Mais ao sul, a falha de San Andreas concentra deslocamentos horizontais entre as placas do Pacífico e da América do Norte. Apesar dos mecanismos diferentes, os dois sistemas se encontram perto da junção tripla de Mendocino.

Pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon encontraram indícios de que grandes terremotos em Cascadia podem ter sido seguidos por rupturas no norte de San Andreas. A explicação envolve a transferência de tensões entre sistemas tectônicos vizinhos, capaz de alterar as condições de ruptura de falhas que já estavam carregadas de energia.

O que os sedimentos revelam

A análise se baseou em turbiditos, depósitos formados por correntes submarinas carregadas de sedimentos, que podem surgir quando abalos provocam deslizamentos no leito do oceano. Ao comparar amostras dos dois lados da junção de Mendocino, os cientistas identificaram sequências com idades parecidas e estruturas sedimentares incomuns.

Em alguns pontos, uma camada de silte aparece coberta por uma camada mais arenosa — configuração chamada de doublet, que pode indicar dois episódios de deposição muito próximos no tempo. Os principais achados foram:

Foram examinados cerca de 3.100 anos de registros; Cascadia apresentou 18 camadas ligadas a possíveis terremotos; o canal submarino de Noyo registrou 19 depósitos; dez camadas de Cascadia tinham correspondências cronológicas próximas; e oito desses dez conjuntos exibiam as estruturas duplas características.

Como um terremoto pode disparar outro

Quando uma falha de grande porte rompe, o deslocamento das rochas altera o campo de tensões da crosta terrestre. Dependendo da geometria e das condições geológicas, essas mudanças podem levar outra falha ao limite de ruptura — processo conhecido como transferência de tensão estática ou desencadeamento sísmico.

Pela interpretação dos autores, uma ruptura em Cascadia poderia modificar as tensões junto ao norte de San Andreas e favorecer um novo abalo em rápida sucessão. A datação por radiocarbono, porém, não tem resolução suficiente para comprovar intervalos de minutos ou horas: essa escala foi inferida principalmente pela disposição dos sedimentos.

Evidências e limites do estudo

Liderado pelo geólogo marinho Chris Goldfinger, da Universidade Estadual do Oregon, com participação de pesquisadores dos Estados Unidos e da Espanha, o trabalho foi publicado em 2025 na revista Geosphere e combinou testemunhos sedimentares, datação por radiocarbono e comparação entre depósitos submarinos.

As idades medianas das dez correspondências diferiram em média 63 anos, com desvio-padrão de 51 anos — o que reflete a incerteza cronológica das camadas, e não o intervalo real entre os tremores. Os autores avaliaram que três episódios dos últimos 1.500 anos, incluindo um ligado ao grande terremoto de Cascadia de 1700, podem envolver rupturas separadas por minutos ou horas.

Os registros indicam que a interação sísmica pode ter ocorrido repetidas vezes, mas não em todos os grandes eventos. O terremoto de San Andreas de 1906, por exemplo, deixou uma camada distinta, sem a estrutura dupla vista em outros depósitos — sinal de que as falhas não precisam romper juntas obrigatoriamente. Os pesquisadores propõem uma sincronização parcial, dependente das tensões acumuladas e das condições de cada evento.

Impacto no planejamento de emergências

Se os dois sistemas romperem em sequência, os efeitos podem alcançar extensas áreas da costa oeste norte-americana: um abalo em Cascadia traria tremores intensos e tsunamis, enquanto uma ruptura no norte de San Andreas atingiria outras comunidades e infraestruturas. Eventos próximos no tempo poderiam sobrecarregar hospitais, transportes e equipes de socorro.

O estudo não permite prever quando as rupturas ocorrerão nem confirma que um terremoto desencadeará outro. Sua principal contribuição é ampliar os cenários do planejamento de desastres, contemplando situações em que cidades distantes exijam ajuda ao mesmo tempo e os recursos disponíveis não bastem para atender cada emergência separadamente.