Guinada antilulista no meio evangélico
O pastor Cláudio Duarte, nome popular entre evangélicos e conhecido por conselhos conjugais e frases espirituosas, com 10,6 milhões de seguidores no Instagram, deu o tom da virada. Em publicação recente, citou músicas que o ajudam a refletir se “este é o Brasil que o brasileiro merece” — de “Que País É Esse?”, da Legião Urbana, a “É Preciso Saber Viver”, de Erasmo e Roberto Carlos. A conclusão veio direta: “Vote certo, não vote 13”.
O recado, que usa o número do PT para sugerir que reeleger Lula seria contratar infortúnio para amanhã, evidencia uma mudança na cena evangélica: pastores que antes mantinham cautela agora verbalizam antilulismo sem disfarces.
Frutos eleitorais para Flávio
Quem colhe esses frutos é Flávio Bolsonaro (PL). Lideranças que já endossaram Jair Bolsonaro, mas relutavam em apoiar o filho abertamente, começam a dar respaldo público ao candidato. Com a terceira via esvaziada, o pragmatismo eleitoral converte o apoio relutante em voto útil.
A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida energizou o grupo. Para o pastor Silas Malafaia, a fake news de que Flávio queria destituir a santa como padroeira do Brasil seria uma tentativa de “promover uma coisa seríssima, uma guerra religiosa”, como declarou na segunda-feira (28).
Renascer em Cristo entra no jogo
Estevam e Sonia Hernandes, à frente da igreja Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus, evitavam declarar voto. A presença da bispa no 7 de Setembro bolsonarista sinalizou a mudança: ela abriu o ato com uma oração, com Flávio ao lado o tempo todo, e afirmou que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” e que “todas as obras das trevas estão amarradas”.
Dois dias depois, Estevam anunciou pela primeira vez o voto em Flávio e passou a publicar conteúdos simpáticos ao bolsonarismo, entre eles uma entrevista do ex-senador em que afirma não haver nada contra ele no caso Daniel Vorcaro. “Nessa reta final, temos visto que os pastores estão dando apoio bem mais incisivos”, reconheceu.
Dúvidas iniciais sobre o primogênito
O episódio mal explicado com Vorcaro preocupava o meio religioso. Flávio pediu ao ex-banqueiro recursos milionários para uma cinebiografia do pai e chegou a chamá-lo de “irmão”; questionado, responde que eram apenas negócios privados. Antes disso, havia dúvidas sobre a robustez eleitoral do candidato: uma dobradinha entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Michelle Bolsonaro (PL) agradava mais a parte dessa liderança. Sem endosso inequívoco do bolsonarismo, o governador paulista preferiu tentar a reeleição, e Jair, preso, cravou apoio ao filho em carta.
Antídoto nas entrelinhas
Há líderes que nem se dão ao trabalho de citar Flávio como alternativa a Lula. A ideia aparece nas entrelinhas de discursos padronizados sobre a importância de eleger quem melhor defende os valores da fé.
É o caso de Josué Valandro Jr., da Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, onde Michelle Bolsonaro congregava antes de mudar para Brasília. Ele critica fiéis apáticos neste pleito com frases como “não existe neutralidade quando o erro está diante dos nossos olhos” e aconselha perguntar-se se a escolha “é coerente com aquilo que eu digo crer”. Em maio, defendeu Flávio após a divulgação de áudios em que o então senador chama Vorcaro de irmão e pede dinheiro para a cinebiografia, dizendo à época que “a direita, às vezes, é muito ingênua, muito infantil”.
