Parentesco confirmado
A dúvida é recorrente: o pimentão seria, como o nome sugere, uma pimenta de tamanho grande? A resposta envolve um sim e um não. O vegetal de formato robusto, casca brilhante e cores vivas é, de fato, parente próximo das pimentas picantes. Todos compartilham o nome científico Capsicum annuum.
Originários das Américas, esses frutos já eram consumidos em suas formas silvestres milhares de anos antes da chegada dos europeus ao continente. As variações surgiram ao longo do tempo por meio da seleção de variedades. As pimentas concentram mais capsaicina, substância responsável pela sensação de ardor, enquanto os pimentões produzem quantidades pouco significativas dela.
Ardor imprevisível
O grau de picância, porém, não depende apenas da variedade. Frutos da mesma planta podem apresentar níveis diferentes de pungência. O caso dos pimientos de Padrón, típicos da Galícia, região da Espanha, ilustra bem a incerteza. Uma rima popular local alerta que essas pimentas nem sempre queimam: “uns picam, outros não”. Só provando para descobrir.
A Espanha foi um dos primeiros pontos de desembarque do pimentão do outro lado do Atlântico. A partir das embarcações de Colombo, o vegetal se espalhou pela Europa, África e Ásia, ganhando variedades, nomes e usos culinários próprios em cada região. No México, um dos principais berços do gênero, preparam-se pimentas recheadas com queijo ou carne que, pelo tamanho, parecem pimentões — mas são “chiles”, ardidos, e não “pimientos”, como manda a distinção linguística local.
Doçura varia com a cor
A classificação “doce” é imprecisa, criada por oposição ao calor das pimentas. Ainda assim, alguns pimentões merecem mais o rótulo que outros, e o segredo está na cor. O verde, o mais comum, é um fruto colhido antes da maturação completa. Em muitas variedades, ele se tornaria amarelo ou vermelho com o tempo — e o vermelho é o mais adocicado de todos. Quanto mais rubro, maior o teor de caroteno. Em todas as tonalidades, porém, há vitamina C e fibras.
Justamente por ser colhido cedo, com o ciclo encurtado, o pimentão verde tende a custar menos. A fama de indigesto, contudo, não é regra. Como outros frutos retirados da planta antes do amadurecimento, ele é mais pungente, o que pode gerar essa sensação, sobretudo consumido cru.
Versatilidade global
As cozinhas do mundo criaram soluções variadas para o ingrediente. Na Itália, a peperonata leva os pimentões cozidos com tomate e cebola. Na Hungria, o lecsó combina os mesmos ingredientes com páprica. Na Grécia, os gemistá são tomates e pimentões recheados, enquanto na Turquia o biber dolması pode levar arroz, ervas e especiarias. Nos Bálcãs, pimentões vermelhos assados originam o ajvar, pasta que também serve para conservar a colheita.
No Brasil, o vegetal empresta seus tons a moquecas, molhos e ensopados, além de dar cor e textura a diversos pratos. O pimentão recheado, muito comum, busca inspiração em diferentes culturas, e há versões mais leves, sem arroz, preparadas apenas com carne moída bem temperada — o fruto em si tem poucas calorias.
O pimentão é como um vizinho antigo encontrado sempre no elevador: está por perto, mas poucos imaginam que viajou o mundo e voltou cheio de ideias. Só conhecendo-o melhor é possível descobrir tudo o que ele tem a oferecer.