A corrida presidencial de 2026 apresenta um cenário incomum: ambos os polos da disputa despertam baixa adesão popular. A avaliação é da cientista política americana Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas e especialista na trajetória do PT.
Segunda a pesquisadora, autora do livro “The Transformation of the Workers’ Party in Brazil, 1989-2009”, o pleito revela um desgaste crescente de parte da população com Luiz Inácio Lula da Silva e com o partido dele. Do outro lado, o principal nome da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL), também não mobiliza entusiasmo. “Vejo os dois lados apagados”, resume a acadêmica.
Cansaço e mudança de perfil
Hunter lembra que Lula derrotou Jair Bolsonaro em 2022 por margem estreita, de 1,8 ponto percentual, e identifica fatores que tornam esta disputa ainda mais complexa para o PT. Entre eles estão a preocupação dos brasileiros com o custo de vida —apesar de um desempenho econômico não considerado ruim— e uma transformação cultural no mercado de trabalho.
Para ela, antes existia uma base sólida de trabalhadores ligados ao regime CLT e aos sindicatos; hoje, muitos preferem seguir carreira como empreendedores. Somasse a isso o desgaste natural de quem ocupa o Poder Executivo e a percepção de que oPT carece de propostas renovadas.
Antipetismo além do esteriótipo
Sobre a rejeição ao partido, apontada pelo Datafocha —que registrou 45% dos eleitos afirmando que jamais escolheriam Lula—, Hunter alerta contra generalizações. O grupo contrário ao partidário, segundo ela, é “muito heterogêneco” e inclui integrantes de minorias, não sendo restrito à parcela branca e abastarda do Sul e Sudeste.
A pesquisadora destaca o papel de um narrativa centrada no trabalho e no meritocrático como combustível dessa rejeição, fenônemo que compara ao observado na Argentina. Sobre programas sociais, atribui o menor rendimento eleitoral do Bolsa Família à sua normalização após duas décadas de vigência.
Voto idoso e cenário regional
Hunter chama atenção para um recorte negligenciado pela análise política tradicional: o público acima de 70 anos, isento de voto obrigatório e com grande número de ausentes em 2022. Esse contingente favorece Lula por uma vantagem estimada entre 10 e 15 pontos, justamente por estar menos exposto ao ideal de empreendedorismo universal.
No embate institucional envolvendo o STF, ela considera que os efeitos pesam mais sobre o presidente, devido à associação pública com o minisistro Alexandre de Moraes, mesmo sem vínculo direto com as controvérias recentes.
Ela descarta que uma possível derrota petista configuraria uma suposta “onda direitista” latino-americana, lembrando que o Parlamento brasileiro e os estados já possuem composição majoritariamente conservadora. Uma vitória de Flávio Bolsonaro, avalia, resultaria principalmente da insatisfação prolongada com quem governa.
Riscos para a democracia
Diferentemente de outros analistas, Hunter enxerga baixo perigo democrático num eventual governo Flávio Bolsonaro. O federalismo e a atuação dos parlamentares —que perderiam espaços diante de soluções autoritarísticas— funcionariam como freios naturais. Ela ressalva, porém, que áreas sensíveis como políticas sociais e iniciativas voltadas à Amazônia enfrentariam riscos concretos sob uma gestão alinhada ao bolsonarismo.
