A tese revisitada
A ideia de um “Nordeste vermelho”, território supostamente dominado pelo PT, volta a ser desafiada pelos números das eleições de 2026. Análise do professor Marcus André Melo, da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e de Yale, indica que o peso do partido nas bancadas federais da região é menor do que nas demais áreas do país.
Em texto publicado em 2022, Melo já havia mostrado que o núcleo do centrão e o PL elegeram 35% dos deputados federais nordestinos, enquanto os partidos de esquerda ficaram com 33%. A participação de PL, PP e Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à observada no conjunto nacional.
Participação petista em queda
Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, um a mais que os 69 de 2022. A fatia do Nordeste, porém, recuou: de 21 cadeiras (30,4%) para 20 (28,6%). Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, a diferença aumentou — são 20 nordestinos contra 50 eleitos em outros estados.
Em 2022, o PT ocupava 13,9% das cadeiras nordestinas e 13,3% das do restante do país, uma paridade virtual. Hoje, proporcionalmente, há menos petistas nas bancadas da região: 13,2% no Nordeste e 13,8% fora dele.
Ao calcular, em cada estado, o percentual de deputados do PT dentro da bancada federal, a mediana das 27 unidades da Federação é de 12,5%, acima dos 11,8% registrados em 2022. Três estados nordestinos superam esse patamar e seis estão na mediana ou abaixo. O Piauí lidera, com 30%, mas Minas Gerais (22,6%) e Espírito Santo (20%) superam a Bahia, maior colégio eleitoral nordestino, que registra 17,9%. O Ceará fica com apenas 13,6%, abaixo de Paraná (16,7%), Rio Grande do Sul (16,1%) e São Paulo (15,7%).
Centrão proporcionalmente mais forte
O desempenho dos demais partidos reforça o contraste com o estereótipo. PSD e PP são proporcionalmente muito mais fortes nas bancadas nordestinas: 41,8% dos deputados do PSD foram eleitos na região, e sete dos nove estados nordestinos aparecem na metade superior da distribuição. No PP, são seis; no Republicanos, cinco. PL e União Brasil concentram-se mais fora da região, mas o PL ainda ocupa 21,5% das cadeiras nordestinas, cerca de seis pontos percentuais abaixo de sua participação nas demais regiões (27,5%). A conclusão é direta: o Nordeste não constitui um sistema partidário distinto do restante do país.
O caso do Maranhão
Em 2019, Melo ilustrou o mito com um experimento natural. Nas municipais de 2012, o PCdoB elegeu cinco prefeitos no Maranhão; quatro anos depois, saltou para 46 — alta de 820% —, concentrando 58% de todos os prefeitos do partido no país. No intervalo, a legenda elegera Flávio Dino governador, e a força centrípeta da máquina estadual operou.
O episódio ajuda a decifrar um enigma apenas aparente: como a mesma região que dá votações esmagadoras ao PT na disputa presidencial entrega prefeituras e cadeiras legislativas a partidos de centro e de direita? Para o pesquisador, o eleitor não é ignorante: arbitra racionalmente escolhas entre ganhos federais e locais. Na eleição presidencial, premia quem associa à oferta de programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e políticas sociais. Nas disputas subnacionais, responde às redes comandadas por governadores — e também por prefeitos e parlamentares capazes de carrear obras, serviços e emendas.
