A disputa pelo voto dos indecisos no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mobiliza apoiadores dos dois candidatos dentro e fora da internet. A ação é centralizada em grupos de WhatsApp, como o “Exército do Lula” e a “Tropa do Flávio”, e se estende a conversas do dia a dia, inclusive com motoristas de aplicativo.

Uma das táticas divulgadas nas redes aparece em postagem no X (ex-Twitter): falar em voz alta, em situações cotidianas, que Flávio acabaria com o Pix. “Hoje, no caixa da farmácia, eu afirmei que iria pagar no Pix pra aproveitar enquanto é grátis”, escreveu a usuária, que relatou reações distintas de dois clientes.

Orientação da campanha e ações orgânicas

Duas semanas após o primeiro turno, em 17 de outubro, a campanha do PT publicou um vídeo vertical com trechos de Lula aconselhando eleitores a dialogar com quem rejeita o presidente. Com animações em estilo videogame e música eletrônica ao fundo, o material funciona como um manual de conversa.

Iniciativas desvinculadas da campanha oficial seguem a mesma linha. Nas redes, usuários publicam guias sobre como abordar indecisos: ouvir as preocupações da pessoa, apresentar pontos negativos de Flávio, citar propostas de Lula e até fingir indecisão ou dizer que votaram em candidatos derrotados, como Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

Lula terminou o primeiro turno cerca de 3 milhões de votos atrás de Flávio. Desde então, a campanha petista busca conquistar indecisos, votos nulos e eleitores de outras candidaturas. A orientação oficial é centralizada no “Exército do Lula”, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG).

Grupo de rua em Fortaleza

Em Fortaleza, nove amigos —entre jornalistas, artistas, pedagogos e advogados— fundaram o projeto “Procuram-se Indecisos”. O grupo divide tarefas online, como edição e publicação de vídeos no Instagram, e ações de rua, com uma faixa em espaços públicos da cidade e conversas com quem se aproxima.

O alvo são os 30 milhões de eleitores que não compareceram ao primeiro turno. Em nota, o grupo afirmou: “Estar atuando coletivamente nessa ação tem sido, na verdade, um respiro em meio ao caos. As pessoas na vida real são menos cruéis que na internet”.

Pressão digital e algoritmos

No ambiente digital, apoiadores orientados por Janones fazem postagens coordenadas para colocar hashtags nos destaques do X e tentam alterar resultados de mecanismos de busca. Milhares de publicações repetem a frase “Pesquise no Google: Flávio caso Ana Clara”.

O músico Vitor Brauer, com cerca de 28 mil seguidores no Instagram, é um dos engajados. “Tenho passado o dia todo comentando, respondendo e compartilhando”, diz ele, que aposta no volume de conteúdo e incentiva fãs, majoritariamente jovens, a se mobilizarem e irem votar. Segundo ele, cerca de mil pessoas deixaram de segui-lo após o posicionamento, além de reações negativas de uma pequena parcela de extrema esquerda e apolíticos.

Empate técnico na mobilização

Um recorte da pesquisa BTG/Nexus, publicado pelo Estado de S. Paulo nesta terça-feira (20), mostra que o esforço ocorre nos dois campos em proporções semelhantes. A cada dez eleitores convictos de Flávio e de Lula, cerca de seis atuam para virar votos: 68,5% entre bolsonaristas e 67,8% entre petistas —empate técnico. A consulta ouviu 2.002 pessoas em todo o Brasil.