A Sabesp, maior empresa de saneamento básico do Brasil, encontrou na transferência de água entre municípios a resposta para a crise que afeta o Guarujá. Para tentar suprir a falta d’água na cidade do litoral paulista, a companhia passou a desviar o recurso que abastece Santos e São Vicente — uma solução que, na prática, consiste em descobrir um santo para cobrir o outro.

Decisão sob gestão privada

A estratégia é executada em um momento de profunda transformação na companhia. A Sabesp foi transferida ao controle privado em 2024, por iniciativa do governo Tarcísio de Freitas, em um dos maiores processos de privatização do país. Desde então, a empresa opera sob nova estrutura de governança, com a promessa de ampliar os investimentos em água e esgoto no estado de São Paulo.

Água que muda de endereço

O mecanismo escolhido chama atenção pela lógica: em vez de ampliar a oferta ou atacar as causas da escassez no Guarujá, a empresa desloca o problema para os municípios vizinhos. A água que passa a chegar à cidade sai do sistema que atende Santos e São Vicente, o que suscita questionamentos sobre o impacto da medida no abastecimento das duas cidades e sobre o planejamento hídrico de toda a Baixada Santista.

A escolha revela um desenho problemático: ao realocar o recurso disponível, a companhia não amplia a quantidade de água na região — apenas muda o problema de lugar. A conta, no fim, pode ser paga pelos moradores de Santos e São Vicente, que passam a conviver com a perspectiva de menos água em suas torneiras para que o Guarujá tenha um pouco mais na sua.

O teste para a nova Sabesp

O caso reacende ainda o debate sobre os rumos da Sabesp após a privatização. A empresa, que se tornou o principal símbolo do programa de concessões do governo paulista, enfrenta um teste concreto de gestão hídrica em uma das regiões mais estratégicas do litoral do estado. A resposta encontrada até agora — realocar água entre cidades — indica prioridade em resolver o problema imediato, mas levanta dúvidas sobre a capacidade de planejamento de médio e longo prazo.

Resta saber se a medida será capaz de normalizar o abastecimento no Guarujá — e a que custo para Santos e São Vicente. O que o episódio deixa claro é que, por enquanto, a solução para a sede de uma cidade tem passado pela torneira das vizinhas.