Além da disputa pela Presidência, o primeiro turno das eleições deste ano consagrou o desempenho dos aliados de Flávio Bolsonaro (PL) no Legislativo. Na Câmara, o PL elegeu 121 dos 513 deputados, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988. No Senado, a estimativa é de que a bancada bolsonarista reúna ao menos 44 dos 81 parlamentares.
Para a cientista política Beatriz Rey, pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do Insper, caso Lula vença no segundo turno, o petista enfrentaria sérias limitações em um eventual quarto mandato. “Ele terá dificuldade para aprovar mudanças constitucionais e até para nomear ministros do Supremo”, afirmou em entrevista.
Os três cenários de Flávio
Se o vencedor for Flávio Bolsonaro, Rey aponta três possibilidades: o “Flávio negociador”, o “Flávio radical” e um quadro em que o senador perde o controle do próprio partido, como ocorreu com o pai, Jair Bolsonaro (PL).
No primeiro cenário, Flávio adotaria o presidencialismo de coalizão, distribuindo ministérios e priorizando a agenda econômica, mas com custo político junto à base bolsonarista, que esperava postura mais radical. Rey pondera, porém, que a distribuição de cargos pode não valer tanto como no passado: o governo Lula 3 já mostrou sinais de que a moeda de troca perdeu valor, já que o Congresso controla boa parte do Orçamento por meio das emendas e também a pauta da Casa.
No cenário radical, Flávio enfrentaria o STF. Ele concorreu com a promessa de soltar o pai e os condenados pelos atos de 8 de janeiro, e sofreria pressão da própria família. Um eventual impeachment de ministro do Supremo exige 54 senadores — a bancada estimada é de 44. O caminho mais viável, segundo a pesquisadora, seria via PEC na Câmara, pauta que une bolsonaristas e centrão.
Números não bastam
Para mudar a Constituição, são necessários três quintos dos parlamentares: 304 deputados e 49 senadores. Levantamentos apontam entre 258 e 303 deputados de direita, dependendo do posicionamento do centrão — maioria absoluta, mas abaixo dos 308 necessários para aprovar uma PEC.
“A maioria do Flávio existe no papel, mas depende desse centrão votar junto”, resume Rey, que ressalta: com o Congresso mais poderoso nas últimas décadas, está mais difícil para o presidente atrair esses parlamentares.