Brasileiros figuram entre os envolvidos em um esquema milionário de casamentos de fachada desarticulado por autoridades federais dos Estados Unidos, em Massachusetts. A apuração, conduzida pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) e divulgada pelo Departamento de Justiça, terminou com cinco mulheres presas e seis pessoas acusadas criminalmente. O grupo é suspeito de articular uniões falsas entre cidadãos americanos e estrangeiros em situação irregular no país, cobrando valores de até 40 mil dólares por cerimônia para viabilizar benefícios migratórios.
Segundo os autos, brasileiros atuaram em distintas fases da operação. Um deles buscou espontaneamente as autoridades e reconheceu ter pago pela organização de um casamento fraudulento. Outro vivia nos EUA mesmo com ordem de deportação emitida em 2009 — e acabou se casando com a própria mulher apontada como chefe da quadrilha.
Líder do esquema
A principal investigada é Jennifer Gonzalez, de 43 anos, residente em Fall River, cidade a cerca de 80 quilômetros ao sul de Boston. De acordo com os promotores federais, ela comandava a atividade havia mais de uma década e teria lucrado milhões de dólares ao arranjar casamentos falsos para estrangeiros que tentavam regularizar a situação migratória.
Brasileiro com ordem de deportação casou-se com a líder
Um dos casos detalhados envolve um brasileiro identificado apenas pelas iniciais J.P. Conforme a declaração apresentada à Justiça Federal, ele já tinha ordem de deportação expedida em 10 de fevereiro de 2009. A decisão foi mantida após recurso, mas ele seguiu morando nos Estados Unidos.
Em 16 de outubro de 2019, J.P. se casou com Gonzalez em Fall River. Naquele momento, segundo os investigadores, ele não possuía autorização legal para permanecer no território americano. Depois da união, a investigada protocolou no Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS) um formulário I-130, documento usado por cidadãos americanos para pedir o reconhecimento de vínculo familiar com estrangeiros, etapa que pode abrir caminho para a residência permanente.
Os agentes federais concluíram que o matrimônio era fraudulento e visava obter benefícios migratórios para o brasileiro. Gonzalez e J.P. tinham entrevista marcada no USCIS para 27 de agosto de 2026, mas nenhum dos dois compareceu. O pedido foi negado em 15 de setembro, pouco mais de um mês antes da divulgação da operação. Os registros não esclarecem se o brasileiro segue nos EUA, se foi alvo de nova medida de deportação ou se responde a processo criminal ligado ao caso.
Outro brasileiro procurou as autoridades
A investigação também traz um cidadão brasileiro identificado como SOI-1, sigla usada para proteger a identidade de uma fonte de informação. Sem antecedentes criminais, ele procurou voluntariamente agentes do Homeland Security Investigations (HSI) e admitiu ter tentado obter benefícios migratórios de forma ilegal mediante pagamentos a Gonzalez e seus associados para organizar um casamento falso com Erica Daniels, uma das acusadas.
As informações dele ajudaram a aprofundar a apuração. O trabalho contou ainda com uma testemunha colaboradora, identificada como CW-1, apresentada a Gonzalez como um brasileiro sem direito legal de permanecer no país. Ela participou de conversas e negociações para uma união fraudulenta com Cherise Alejandro, apontada como cunhada da investigada. Segundo os documentos, essa testemunha já havia colaborado com órgãos federais, inclusive com o Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), e poderia receber compensação financeira pela cooperação.
Fotos de cerimônias em 2018 e 2024
O Departamento de Justiça divulgou fotografias de cerimônias que, segundo os investigadores, foram organizadas para simular relacionamentos legítimos. Uma das imagens registra Jessica Tavares, de 31 anos, em suposto casamento fraudulento com um imigrante brasileiro, realizado em maio de 2018. Outra mostra Erica Daniels, de 29 anos, em cerimônia com um brasileiro, em agosto de 2024. Os nomes dos brasileiros que aparecem nas fotos não foram revelados, e não há confirmação de que todos os citados nos documentos sejam pessoas distintas ou tenham sido formalmente denunciados.
Até 40 mil dólares por união
De acordo com o Departamento de Justiça, Gonzalez administrava uma estrutura dedicada a aproximar estrangeiros sem situação migratória regular de cidadãos americanos dispostos a participar dos casamentos falsos. Os investigadores estimam que a organização realizava entre 18 e 20 casamentos fraudulentos.
