O tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Geraldo Leite Rosa Neto, 54 anos, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32, foi ouvido pela Justiça na segunda-feira (5/10). O interrogatório ocorreu no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, e se estendeu por oito horas.

Segundo a Justiça, os trabalhos começaram às 13h40 e foram encerrados por volta das 22h, com uma breve pausa às 16h30.

A audiência ocorre após um novo laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Civil concluir que Gisele não teria condições de atentar contra a própria vida — tese defendida pela defesa do oficial. O documento, obtido pelo Metrópoles, também aponta a participação de uma segunda pessoa na dinâmica da morte. O material foi acrescentado ao processo na última sexta-feira (2/10) e elaborado para responder aos questionamentos apresentados pela defesa.

Novo laudo

Assinado pela perita criminal Amanda Rodrigues Marinone, o laudo chega à mesma conclusão das perícias anteriores e descarta de forma categórica a hipótese de suicídio. Segundo a especialista, seria impossível o corpo da vítima ser encontrado na posição em que foi localizado caso ela tivesse disparado contra a própria cabeça — o que sugere o envolvimento de outra pessoa na morte.

Para sustentar a conclusão, a perita citou testes e simulações que confrontam a versão do tenente-coronel. Os peritos verificaram, por exemplo, que a arma do crime estava sobre um guarda-roupa de cerca de 2 metros de altura, fora do alcance de Gisele, que media 1,65 metro.

O estudo também analisou a visibilidade a partir do banheiro e constatou que, ao contrário do alegado por Geraldo, ele não tinha como enxergar a esposa caída de dentro do box onde, segundo ele, estaria tomando banho. O sentido do escorrimento de sangue no corpo da vítima, ainda conforme o documento, contraria a tese de suicídio. “Reexecutados, esses experimentos produzem o mesmo resultado”, registrou a perita.

Relembre o caso

Gisele foi socorrida gravemente ferida, com um disparo de arma de fogo na cabeça, em 18 de fevereiro, no apartamento do casal no Brás, na região central de São Paulo, e não resistiu. Os dois estavam sozinhos no imóvel.

Geraldo sustenta que a mulher se matou após ele anunciar a intenção de encerrar a relação. A perícia, porém, apontou a impossibilidade dessa versão.

Prisão e punição na corporação

O tenente-coronel está preso preventivamente desde 18 de março no Presídio Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, unidade exclusiva para policiais militares que cometeram qualquer tipo de crime. Ele foi pronunciado pelo crime e será submetido ao Tribunal do Júri. A data da audiência ainda não foi marcada.

Além da ação penal, o oficial responde a um processo administrativo no Conselho de Justificação da PM, que pode resultar na perda da patente. Em 31 de março, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, determinou a instauração do colegiado, que analisa a incapacidade de oficiais permanecerem na ativa e pode punir com demissão ou reforma.

O processo prevê a escolha de três oficiais mais antigos que o tenente-coronel para avaliar sua conduta. A decisão sobre a demissão será submetida ao Tribunal de Justiça Militar (TJM). Caso o tribunal referende a saída, o próximo passo é a sanção do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Após a prisão, Geraldo foi transferido para a reserva da corporação, a pedido. A mudança foi publicada no Diário Oficial em 2 de abril. O militar tem 30 anos de carreira e, desde 2016, tem direito à aposentadoria por tempo de serviço.