A Polícia Federal apreendeu ao menos R$ 30 milhões ligados a suspeitas de crimes eleitorais desde janeiro de 2026. Desse montante, R$ 19 milhões estavam em espécie e foram encontrados com candidatos ou com intermediários deles. Os R$ 11 milhões restantes correspondem ao valor estimado de bens apreendidos, como veículos, imóveis e celulares.

O total já é o triplo dos R$ 10 milhões registrados durante todo o ano eleitoral de 2022, mas fica abaixo dos R$ 63 milhões apreendidos em 2024, quando ocorreram eleições municipais.

A apreensão, por si só, não caracteriza crime eleitoral. Investigadores apuram, no entanto, se existem outros elementos que apontem para compra de votos ou caixa dois.

Roraima lidera apreensões

O maior valor deste ano foi registrado em Roraima. Em 4 de setembro, policiais encontraram R$ 4 milhões em notas durante abordagem a um empresário e a um policial militar. A PF investiga se os recursos tinham relação com a campanha ao Senado da deputada federal Helena da Asatur (PSD-RR).

Procurada, a parlamentar afirmou, por meio de assessoria, que “não tem conhecimento de nenhuma operação da Polícia Federal ou investigações sobre seu trabalho e conduta política em mandato”.

Na última sexta-feira (25), também em Roraima, o candidato a deputado federal Daniel Trindade (PL) foi preso sob suspeita de crime eleitoral, durante busca e apreensão da PF. A ação integrou a Operação Cunhambebe, que apura cursos clandestinos de segurança privada e a possível formação de grupo organizado para dificultar a atuação de órgãos públicos na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A equipe do candidato foi procurada por WhatsApp, mas não houve retorno até o fechamento da reportagem.

Pará e Tocantins

Na sequência dos estados com maiores valores apreendidos aparecem Tocantins, com R$ 4,4 milhões, e Pará, com R$ 3,29 milhões.

No Pará, parte do dinheiro foi apreendida em investigação que apura possível repasse à campanha de Adriano Coelho (MDB-PA) ao cargo de deputado federal. O valor teria sido sacado em contas de uma empresa que mantém contratos com o governo do Pará. Segundo documento da PF, foram apreendidos R$ 2,5 milhões em espécie, acondicionados em uma mochila e em uma caixa de papelão, junto a comprovantes bancários e autorizações de transferências eletrônicas vinculadas à campanha do candidato. A reportagem não localizou o postulante nem sua assessoria.

Defesa de candidato

Em julho, a PF apreendeu cerca de R$ 900 mil em Palmas com o deputado estadual Nilton Franco (União Brasil), candidato à reeleição. Ele afirmou ser produtor rural e pecuarista desde a infância, que o dinheiro provém de financiamento bancário e será usado em negócios ligados a gado. Segundo ele, a destinação foi informada ao banco antes do saque, e os documentos, inclusive notas fiscais, já foram apresentados à PF.

“Tem alguma lei que proíbe sacar dinheiro? A pessoa exigiu que o pagamento fosse dessa forma”, disse o parlamentar, que criticou a abordagem policial: “Eu sou deputado, não sou bandido. Comprei o gado como pessoa física.”

Inquéritos e fiscalização

Até setembro, a PF havia instaurado 1.194 inquéritos para apurar crimes eleitorais. O Rio de Janeiro lidera, com 137 procedimentos, seguido por Maranhão (121), Ceará (118), São Paulo (83) e Paraná (64).

Segundo investigadores, o dinheiro em espécie segue como principal instrumento em esquemas de compra de votos; Pix e transferências bancárias aparecem com menos frequência. Por isso, a corporação monitora movimentações consideradas suspeitas, como saques fracionados e retiradas acima de R$ 50 mil, que podem exigir comunicação ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), conforme as regras de prevenção à lavagem de dinheiro.