Violência no cotidiano define escolhas
O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025 — média de quatro vítimas por dia. Desse total, 65% das mulheres assassinadas eram negras e 62% foram mortas dentro de casa. Para cada feminicídio, foram anotados 501 casos de ameaça e 182 agressões físicas. Os números constam do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e mostram a exposição das mulheres à violência no país.
Os estupros também impressionam: foram 231 registros por dia envolvendo vítimas do sexo feminino, e 77% delas tinham até 13 anos. Especialistas estimam que apenas parte dos casos chega aos boletins de ocorrência.
Da dor à militância
A pernambucana Janaína Flavia de Almeida Souza, 43, casou-se aos 20 anos com quem acreditava ser um companheiro para a vida. Logo vieram as agressões. “Sofri todo o tipo de violência”, relata. “É humilhante. Você se sente ninguém. Se sente no lixo.” Ela fugiu e deixou tudo para trás. Hoje trabalha como representante de um aplicativo que avisa mulheres sobre a aproximação de agressores com medida protetiva.
Mãe de cinco filhos e liderança na Assembleia de Deus que frequenta, em Olinda (PE), Janaína diz ter transformado o medo em coragem. “Eu não tenho traumas. Não posso carregar essas dores”, afirma. Atualmente é casada e descreve a relação como de amor recíproco.
Nas eleições de 2026, ela votará em Flávio Bolsonaro (PL), embora declare mais entusiasmo pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe. Discorda, porém, da flexibilização de posse e porte de armas. “Arma deveria estar na mão só de quem está preparado para usá-la”, diz. Seu sonho é andar tranquilamente com os filhos “em um caminho iluminado, festivo, com girassóis”, suas flores favoritas.
Expectativa diferente do Estado
Segundo a professora da UnB Flávia Biroli, mulheres tendem a confiar mais no Estado e a desconfiar de respostas baseadas apenas em punições mais severas. “Homens morrem mais e matam mais que mulheres, mas são seus filhos e companheiros”, afirma. As pesquisas mostram, segundo ela, que as eleitoras falam a partir de um lugar de perda e enxergam o Estado como garantidor de creche, transporte e saúde — por isso a promessa punitivista “cola menos”.
Nas intenções de voto, a rejeição a Flávio entre mulheres é maior que a de Lula (PT), mas o desempenho dele melhorou: cresceu quatro pontos entre agosto e a semana passada, de 29% para 33%, segundo o Datafolha. Lula oscilou de 41% para 42%. A segurança pública é um dos temas mais delicados para a tentativa de reeleição de Lula, embora boa parte da política na área seja de competência dos estados. O combate ao crime organizado ganhou projeção após o governo Donald Trump classificar facções como terroristas.
Um levantamento de julho dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revela o tamanho do problema: 54% das mulheres dizem ter sofrido violência prevista na Lei Maria da Penha, enquanto só 11% dos homens admitem ter agredido parceiras ou ex-parceiras.
A mineira Cenir Aparecida da Silva, 58, mestre de obras e mãe solo de quatro filhos, preferia deixá-los sozinhos sob o cuidado da mais velha a ter um homem em casa, por falta de creches. “Não tenho medo de homem”, resume.
Série ouve 15 mulheres
As reportagens integram a série Voto das Mulheres, que ouviu 15 mulheres de diferentes regiões, classes, raças e inclinações políticas. Os capítulos anteriores trataram da voz política e da representatividade, do mercado de trabalho e da influência da fé. A segurança, o medo e a coragem atravessaram todas as entrevistas. Os retratos foram feitos com fotos de múltipla exposição combinadas a imagens geradas por inteligência artificial a partir dos sonhos relatados.
