Enxurrada de medidas na reta final

Em cinco semanas, o governo Lula anunciou uma sequência de medidas: corte de imposto na gasolina, reajuste do Bolsa Família, programa de renegociação de dívidas, proibição de casas de apostas e crédito de até R$ 5 mil para microempreendedores. Todos os anúncios saíram entre 9 de setembro e 13 de outubro, a menos de duas semanas do segundo turno da eleição.

O governo apresenta justificativa para cada ação, mas o calendário chama atenção: o endividamento das famílias, o peso do combustível e as dificuldades dos microempreendedores não surgiram em setembro. As respostas, no entanto, só chegaram com a campanha em fase decisiva.

Gasolina com prazo de validade

O alívio nos postos vale por 30 dias e termina no início de novembro, depois da votação. Quando o prazo vencer, restam dois caminhos: o tributo federal volta e pode encarecer o próximo abastecimento, ou o governo prorroga a medida e precisa explicar como arcará com o custo. A previsão é compensar a despesa atual com receitas extraordinárias do petróleo, o que vale apenas para o momento. Entre os primeiros a sentir qualquer reajuste estão motoristas de aplicativo, entregadores e pequenos comerciantes que rodam a cidade para trabalhar.

Bolsa Família e a conta futura

O reajuste do Bolsa Família começa a cair na conta em 19 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno. O governo afirma ter apenas corrigido a inflação, mas a perda de poder de compra é anterior a setembro. Há outro ponto: a proposta orçamentária de 2027, enviada pelo próprio Executivo, não incorporou o aumento. Manter o benefício no ano que vem exigirá remanejar recursos, rever despesas ou buscar novas receitas — solução ainda não apresentada ao eleitor.

Pix MEI sem regras definidas

Anunciado na terça-feira (13), o Pix MEI promete até R$ 5 mil a fundo perdido, mas o programa segue em estruturação: não há critérios para definir quem recebe nem data de pagamento. O perdão das dívidas dos MEIs com a União valeria apenas a partir de 2027 e depende de aprovação do Congresso, como a elevação do teto de faturamento. O próprio ministro do Empreendedorismo reconheceu que o endividamento do setor cresceu muito depois da pandemia. Ainda assim, o projeto de perdão só foi enviado ao Legislativo 12 dias antes do segundo turno.

Bets: regra mudada em plena campanha

Foi o próprio governo que regulamentou as casas de apostas e cobrou caro pelas licenças. Nove dias antes do primeiro turno, uma medida provisória proibiu as apostas de quota fixa. O prazo para o apostador retirar o saldo terminou um dia depois da votação. Empresas que investiram, contrataram e assinaram contratos com base na regra anterior passaram a conviver com a incerteza sobre o próprio setor.

Fatura para depois das urnas

Com as contas públicas no vermelho, dívida em expansão e juros de 13,75% ao ano, cada promessa sem dinheiro garantido aumenta o risco de crédito mais caro. Quem assumir o governo em janeiro receberá um orçamento apertado e uma fila de compromissos a cumprir, com escolhas entre cortar despesas, aumentar receitas ou se endividar. O calendário, por si só, não comprova ilegalidade. Mas concentrar as respostas na reta final da campanha e deixar a conta para depois da eleição é o que fica para o eleitor, que ainda não sabe de onde sairá todo o dinheiro.