Ressentimento e política econômica

No dia 19 de setembro, durante evento de campanha em Florianópolis, o presidente Lula declarou, referindo-se ao agronegócio: “se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar para mim”. Não foi a primeira manifestação desse teor do petista a respeito do principal setor da economia brasileira.

Segundo a análise do cientista político Alberto Carlos Almeida, doutor em ciência política e diretor do Instituto Brasilis, o presidente partia de uma constatação correta: em seu primeiro governo, atendeu a demandas relevantes da elite econômica. A principal delas foi a geração de superávit primário, somada à não interferência nas decisões de Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central.

A mesma elite, porém, acabou financiando a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e comemorou a prisão do ex-presidente. Diante disso, o Lula do terceiro mandato optou por não repetir a fórmula de sucesso de 2003.

Na avaliação do pesquisador, as piores decisões de um homem público são as tomadas sob influência do rancor. Ao adotar uma política econômica oposta àquela que lhe garantiu a reeleição, o presidente teria selado o destino do terceiro mandato.

Avaliação do governo decide eleições

A análise lembra que presidentes, governadores e prefeitos reeleitos costumam apertar as finanças públicas nos primeiros anos e gastar nos finais, cujas realizações têm forte impacto na avaliação popular. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso em 1998, Lula em 2006 e Dilma em 2010, todos reeleitos com mais de 38% na soma de ótimo e bom no Datafolha da semana anterior ao primeiro turno. Bolsonaro tinha 31% em 2022; Lula, nas últimas semanas, apenas 34%.

Para o autor, é o governo que ganha ou perde a eleição — a oposição apenas se apresenta ao eleitorado caso a maioria queira mudar. O primeiro turno mostrou o desejo de mudança vencendo o de continuidade, tendência que deve se repetir no segundo.

A probabilidade de Lula ultrapassar Flávio Bolsonaro até o dia 25 é considerada mínima, não muito superior a 2%. Caso Flávio seja eleito, será a primeira vez desde o fim da ditadura militar que o partido do presidente terá mais de 20% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 35% das cadeiras do Senado Federal.

Candidatos ao sacrifício

O desfecho também carrega, segundo a análise, a marca da soberba presidencial. Haddad foi escalado para o sacrifício na disputa pelo governo de São Paulo, quando poderia ter sido o puxador de votos para deputado federal. Gleisi Hoffmann correu o mesmo risco no Paraná, ao buscar uma vaga improvável no Senado em vez de reforçar a legenda proporcional. Tudo para ajudar um presidente cujo governo não tinha a soma de ótimo e bom que o tornasse favorito.

Em 2022, muitos afirmaram que apenas Lula, pela capacidade política e de comunicação, seria capaz de derrotar Bolsonaro. O que derrubou o então presidente, contudo, foi a má avaliação de seu governo. Em 2026, repetiu-se a lógica: a vitória de Lula seria garantida porque Flávio Bolsonaro seria um candidato fraquíssimo. O que derrotou o petista no primeiro turno, e confirmará o resultado no segundo, é a má avaliação do próprio governo — o peso das circunstâncias é sempre maior que o das individualidades.

O segundo turno será, para Lula e o PT, uma luta fadada ao fracasso, com inúmeras teorias mobilizadas, esperanças alimentadas e autoengano ampliado entre simpatizantes e militantes de esquerda. O resultado é a colheita de algo plantado em quatro anos: um governo que não foi de frente ampla, apesar da promessa de 2022, liderado por um presidente que não repetiu a fórmula de sucesso do primeiro mandato e se deixou influenciar pelo sentimento que leva às decisões mais equivocadas — o ressentimento.