A disputa presidencial em Minas Gerais mudou de figura em relação a 2022. Há quatro anos, Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) no estado por apenas 49.650 votos. No domingo (4), o senador Flávio Bolsonaro encerrou o primeiro turno à frente do petista com 4,91 pontos de vantagem — cerca de 588 mil votos de diferença, o equivalente a um quarto da distância de 2,2 milhões registrada entre os dois no plano nacional.

Os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) revelam um quadro dividido. Lula venceu em mais municípios mineiros: 452 cidades, contra 401 de Flávio. O problema para o planalto está no tamanho dos colégios eleitorais perdidos. O candidato do PL foi o mais votado em Belo Horizonte, na maior parte dos municípios da região metropolitana e em nove das dez maiores cidades do estado, entre elas Uberlândia, no Triângulo Mineiro, Ribeirão das Neves — reduto historicamente petista na Grande BH — e Montes Claros, um dos poucos municípios do norte de Minas em que o presidente ficou atrás.

Entre as dez cidades mais populosas, Lula só liderou em Juiz de Fora, na Zona da Mata, onde manteve o desempenho de pleitos anteriores. Flávio, além disso, reverteu o resultado de 2022 em 178 cidades; o petista não virou nenhum município que havia dado vitória a Bolsonaro no último pleito.

Espelho do país

Com o segundo maior eleitorado do Brasil, Minas é tratada por analistas como termômetro da apuração nacional. Desde o início da campanha, em agosto, os dois candidatos visitaram o estado ao menos quatro vezes.

Para Lucas Gelape, professor de ciência política da UFMG, Minas é o estado que mais se aproxima de um espelho do país. Por ser grande e desconcentrado, explica o especialista em geografia eleitoral, ele é poroso a influências diversas e reflete movimentos de outras regiões.

Gelape evita concluir que o resultado aponta alinhamento crescente de Minas à direita, que deu votação recorde a Nikolas Ferreira (PL), reeleito deputado federal, e elegeu as maiores bancadas estaduais e federais do partido no estado. Na avaliação dele, a diversidade entre as cidades permanece. O acadêmico defende que a campanha petista concentre esforços nas grandes cidades, onde há mais votos — e onde Lula mais perdeu eleitores.

Ele questiona, porém, a linha estratégica do presidente para o segundo turno. A bancada do PT na Câmara e na Assembleia Legislativa de Minas cresceu, e há deputados com enraizamento no estado, mas falta definir o que dizer e a quem. Do lado de Flávio, o caminho seria mais simples: manter o discurso e converter o eleitorado dos candidatos eliminados no primeiro turno.

Na semana passada, o senador ampliou sua base de apoio com o endosso de Ronaldo Caiado (PSD), da Federação União Brasil/PP, do Novo e do Republicanos, legenda do governador eleito Cleitinho.

Busca por mudança

Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, lê a derrota de Lula nos grandes centros como sinal de um eleitorado que deseja alternância, demanda difícil de atender para um incumbente em busca de reeleição. Segundo ele, o fenômeno está ligado à classe média trabalhadora frustrada: diferente dos beneficiários de programas sociais, esse grupo depende do Estado para serviços públicos e não vê o poder de compra crescer.

As duas campanhas passam a disputar um contingente decisivo: os 3,7 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno em Minas.