Sheik evita indicar candidatos e apela a valores da fé
Na Mesquita Brasil, a mais antiga do país, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo, um hádice — registro das palavras do profeta Maomé — estampado em uma das paredes recomenda: “Não te enfureças”. A orientação parece guiar também a postura do sheik Mohamad Al Bukao diante das eleições de 2026.
O líder religioso se recusa a dizer se a comunidade muçulmana deve votar em Lula (PT) ou em Flávio Bolsonaro (PL). Em vez disso, pede que os fiéis levem em consideração os valores da religião na hora de escolher.
“As pessoas têm a liberdade de escolher candidatos, mas tem que ser com consciência, baseada naquilo que a nossa religião acredita. Temos de apoiar quem está do lado da justiça, da verdade, dos valores humanos”, afirmou o sheik em entrevista ao portal.
Segundo ele, a divergência de opiniões faz parte da vida democrática, mas a raiva não deve comandar as decisões. “O amor pelo Brasil tem que unir todo mundo. Temos que colocar o Brasil e os interesses dos brasileiros em primeiro lugar”, disse.
A postura se assemelha à da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que adotou neutralidade entre os candidatos e defendeu dignidade humana, bem comum, justiça social e democracia.
Palestina pesa na decisão do eleitorado muçulmano
Para boa parte dos muçulmanos, no entanto, o voto no segundo turno é influenciado pela postura dos dois presidenciáveis sobre a Palestina, de maioria islâmica. Lula e Flávio Bolsonaro defendem lados opostos no conflito entre Israel e Hamas, em curso desde outubro de 2023.
No discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU neste ano, Lula afirmou que “gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo [Binyamin] Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”.
O uso do termo “genocídio” marcou mais um capítulo na tensa relação diplomática entre Brasil e Israel. Lula chegou a ser declarado “persona non grata” em 2024, quando comparou ações militares israelenses na Faixa de Gaza à perseguição de judeus no Holocausto. Os dois países ainda tiveram outros atritos: Israel segue sem embaixador no Brasil depois que o Itamaraty não concedeu o agrément à indicação de Gali Dagan, ex-embaixador na Colômbia.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, declarou apoio público a Israel desde a pré-candidatura. Em janeiro, chamou Lula de antissemita em evento em Jerusalém.
Comunidade muçulmana no Brasil
Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o Brasil tem pouco mais de 41 mil muçulmanos, embora a Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) estime o número em até 1,5 milhão. Sem orientação formal dos líderes religiosos, o eleitorado muçulmano deve decidir o voto entre a identificação com a causa palestina e o antipetismo.
