O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, concilia a campanha eleitoral com a advocacia em um caso no STJ (Superior Tribunal de Justiça) que envolve um cliente de Willer Tomaz, amigo do presidenciável. A última petição apresentada por Flávio foi assinada em 14 de outubro, no mesmo dia em que ele participou de um comício em Porto Alegre e votou à distância, no Senado, a favor da PEC que extingue a escala 6×1.

Flávio ingressou na ação em 2022 como representante do empresário Mário Gadelha Simas Filho, em uma disputa entre sócios da Simas Industrial de Alimentos, uma das maiores fábricas de balas e pirulitos do país. Na ocasião, Willer também atuava na defesa do empresário e não teve sua representação revogada nos autos, mas desde então as peças do processo passaram a ser assinadas por Flávio.

Procurados pela reportagem, por meio de suas assessorias de imprensa, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz não se manifestaram sobre a atuação no processo. A Simas também foi procurada e não se posicionou.

Investigação da PF

As relações entre Flávio e Willer são alvo de inquérito da Polícia Federal que aponta suspeitas de lavagem de dinheiro. Os dois viajam juntos com suas famílias e participam de eventos sociais.

Documentos analisados pela PF indicam que Flávio tinha acesso de usuário master na conta bancária de uma das holdings de Willer, a Alcazar, o que lhe conferia elevado poder de gerenciamento. Em maio de 2025, foi solicitada a exclusão do senador da conta — para a investigação, o elemento indica que ele permanecia vinculado à conta, ao menos operacionalmente, até aquela data.

No celular do senador foram encontradas fotos e documentos vinculados a ele. As famílias dos dois também viajaram com passagens compradas pela Cathedral Holding, única acionista da Rede Loto, dona da casa de apostas BestBet.

Escritório de advocacia

A atuação dos dois no mesmo caso evidencia a aproximação entre eles. O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi aberto em 2021 e não tem outros sócios, conforme o cadastro na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Não há registro de funcionários formais, e o endereço é a residência do senador em Brasília.

A administradora do escritório é Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, que a PF afirma ser sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas.

Segundo o UOL, o escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho deste ano. A Simas Industrial de Alimentos é o segundo maior cliente: foram três notas fiscais entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, no total de R$ 3,3 milhões. A atuação de Flávio no processo já havia sido noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 2022.

A lei autoriza parlamentares a advogar, desde que não seja contra ou a favor de entes públicos, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias e concessionárias de serviços públicos.

Defesas anteriores

Sobre o acesso à conta da Alcazar, Flávio afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Quando a Folha revelou que a Cathedral pagou voos para o senador, sua campanha disse que a relação com Willer é exclusivamente de amizade e que “associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”.

Em nota sobre o inquérito, a assessoria de Willer afirmou que “todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda”. O texto acrescentou que “não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido”, que a Rede Loto “nunca lançou operação de apostas” e que “a relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime”.