Um texto poético intitulado “Bolsonarismo” chama atenção pela forma como constrói, em poucos versos, uma caracterização crítica do fenômeno político que dá nome à composição. A peça explora rimas e metáforas ligadas ao corpo humano para associar o bolsonarismo a outras expressões autoritárias.
Jogos de som e sentido
A abertura estabelece uma dupla aproximação sonora: o termo bolsonarismo é apresentado como palavra que rima com militarismo e lembra milicianismo. O recurso fonético serve de porta de entrada para o argumento central do texto, que liga o movimento político a duas tradições marcadas pelo uso da força — a caserna e as milícias.
O corpo como metáfora
Na sequência, o autor recorre à anatomia para descrever o fenômeno. O coração aparece como o órgão onde palpitam as batidas do autoritarismo, imagem que sugere que o autoritarismo seria o elemento vital e pulsante do bolsonarismo.
Veias e artérias, responsáveis pela circulação, recebem imagens de contágio: os micróbios do fascismo viajam nas veias, enquanto os vírus do nazismo percorrem as artérias. Ao escolher microrganismos como metáfora, o texto sugere a ideia de doença e infecção, apresentando o fascismo e o nazismo como agentes patogênicos em circulação no “corpo” bolsonarista.
Final em aberto
O fragmento se interrompe no verso “Nas entranhas, repousa…”, deixando a ideia incompleta. As entranhas, último órgão citado, guardariam algo que o texto não revela — o que confere ao fechamento um caráter de suspense e sugere a existência de algo oculto no fenômeno descrito.
Construção retórica
Do ponto de vista formal, a composição aposta em rimas constantes terminadas em “-ismo” (militarismo, milicianismo, autoritarismo, fascismo, nazismo), que unificam os versos e reforçam a comparação entre os diferentes “ismos”. A estrutura segue um percurso anatômico — coração, veias, artérias, entranhas — que organiza as comparações políticas em camadas cada vez mais internas do corpo.
O resultado é uma caracterização do bolsonarismo como fenômeno que, segundo o texto, carrega em sua essência elementos do autoritarismo, do fascismo e do nazismo, além de lembranças do militarismo e do milicianismo. A peça permanece no registro poético, sem trazer dados, nomes ou eventos específicos — o argumento é construído inteiramente por imagens e associações sonoras.
