Um clima de alarme toma conta das expectativas sobre a composição do Congresso Nacional a partir de fevereiro de 2027. Antes de ceder ao catastrofismo diante do tamanho das bancadas conquistadas pelo PL, vale relembrar como o jogo político funciona no dia a dia do Legislativo.

Sem alianças, nada avança no universo de 594 parlamentares. Mesmo com 28 senadores e 121 deputados, o PL não alcança maioria absoluta, não tem controle garantido em votações de maioria simples e está longe do quórum qualificado exigido para aprovar emendas à Constituição.

Equilíbrio de forças

A direita bolsonarista cresceu nas eleições, a esquerda manteve seu tamanho, e o chamado conservadorismo segue majoritário, com leve avanço de 57% para 59%. O centrão encolheu em número de cadeiras, mas preservou intactos seu apetite pelo poder e sua expertise nas negociações políticas.

Por isso, são precipitadas as conclusões de que Flávio Bolsonaro (PL), se eleito presidente, poderá fazer e desfazer ao seu bel-prazer, ou de que Luiz Inácio da Silva (PT), em caso de vitória, passará por cima do Parlamento em goleadas — ou, ao contrário, não conseguirá governar.

Vida fácil não terá nenhum dos dois. A maioria não garantirá hegemonia a Flávio. Sem experiência nas lides governamentais, o candidato do PL terá de aprender, na prática, como lidar com as resistências do Legislativo. Já Lula, que andou desinteressado desse ofício, pode se convencer a retomar suas habilidades de negociador.

Reação das lideranças

Passado o entusiasmo inicial, a tendência é que o Congresso busque a acomodação das forças políticas. Nem todo parlamentar de direita é bolsonarista, e a estridência dos chamados cristãos-novos tende a ceder espaço diante da experiência dos colegas veteranos nas articulações decisivas e na defesa da ampliação do poder do Legislativo.

Desse domínio sobre o funcionamento da Casa dão notícia Davi Alcolumbre (União Brasil) e Hugo Motta (Republicanos), que não esperaram o fim do pleito para cuidar das próprias reeleições e trabalhar para que as mudanças deixem tudo como está. Afinal, como se costuma dizer: camarão que dorme, a onda leva.